terça-feira, 5 de novembro de 2013

Web LuAr Um Dia De Cada Vez - Capítulo Três

Harlem, Manhattan, 3 de setembro. Seis e trinta da tarde, exatamente. O táxi me deixou na porta do prédio vermelho-terra velho da rua 121. Eu vestia roupas largas e um boné azul turquesa e branco que o Thur tinha me dado há uns três anos atrás. Quando eu não tinha que estar “bem-vestida” para alguma coisa, eu sempre o usava. Ele estava sentado nas escadinhas que antecediam a porta do prédio, com um jeans propositalmente rasgado no joelho e uma blusa azul clara. - Cheguei cedo? – perguntei, vendo-o virar seu olhar pra mim. Parece que dessa vez quem estava em transe era ele. - N… Não, não – ele acordou – Chegou na hora. - E então? – comecei a andar um pouco ansiosa na sua direção – Qual é a surpresa? - Hm… – ele me examinou dos pés à cabeça – Isso, senhorita. Eu ainda pretendo fazer um pouco mais de suspense – ele deu de ombros, se levantando. - Droga, Thur. Isso é sacanagem – fiz minha “cara fofa”, arrancando-lhe uma risada. - É – ele tirou uma chave do bolso e abriu o portão do prédio – Primeiro, vamos lá para cima. Meu pai quer ver você. - Ah, e como o velho Aguiar está? – eu disse animada, passando pela porta, enquanto Thur a segurava. - Forte como um touro. - Como sempre – completei. Thur morava num prédio simples e velho do Harlem, junto com várias outras pessoas. Havia quatro apartamentos em cada andar (eram três andares). As escadas do prédio eram estreitas, os apartamentos muito unidos e pequenos. Thur não se importava e, se estava tudo bem pra ele, para mim também estava. Enquanto subíamos as escadas do primeiro para o segundo andar (ele morava no último), ouvíamos urros de dor de uma mulher, vindo do apartamento 201. - É a Senhora Stevens… – ele me olhava, coçando a cabeça um pouco sem graça – Ela deve estar parindo. - De novo? – eu perguntava incrédula – Esse já deve ser o décimo terceiro filho dela… - Ou décimo quarto - ele levantou as sobrancelhas. - Que estranho… Da última vez que vim aqui, ela também estava parindo… – estreitei os olhos. - Quando foi a última vez que você veio aqui? – estava subindo as escadas na minha frente. - Semana passada… – meu tom ainda era pensativo – Mas se ela não estava parindo, o que ela…? – Thur olhou pra trás, com os olhos arregalados, como se me dissesse: “não complete a pergunta!”. Engoli a língua – Enfim… Começamos a subir o próximo lance de escadas, ainda a tempo de ver um vulto ser lançado para fora de um dos apartamentos do terceiro andar. - Ligue para mim, gracinha! HAHA! – gritava a pessoa arremessada para fora do apartamento que a tinha arremessado. Ouvimos o bater da porta. O rapaz no chão parecia se divertir. Era negro, alto, forte e possuía dreads no cabelo. Aparentava ser só um pouco mais velho do que eu. - Jay-Jay… – Thur começava um pouco nervoso – O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – alterou-se. - Qual é, mano doido?! – Jay-Jay se levantou do chão, abraçando Thur e lhe dando dois tapinhas nas costas. Dei uma risada. - O que você estava fazendo no apartamento da Mary Ja… – Jay-Jay o empurrou para o lado, antes que ele terminasse, fixando seu olhar em mim com um largo sorriso. - Você trouxe a princesa! – e me deu um forte abraço. Eu já conhecia aquele abraço. Sorri. - Ei, Jay-Jay – eu o correspondia, enquanto via Arthur girar os olhos. Jay-Jay morava no apartamento do lado do da família Aguiar. Sempre morou lá. Então desde que Thur se mudou para a vizinhança, eram ótimos amigos. Embora eu não saiba exatamente o que “J.J” significa, nos demos bem logo que nos conhecemos, na primeira vez que vim à casa do Arthur, há anos. Jay-Jay se tornou um excelente companheiro. - Você sabe que, se for preso outra vez, não vou ter como livrar a sua barra – Thur falava um pouco sério. - Relaxe, irmão – ele me soltava de seu abraço, se virando para o amigo – Você sabe muito bem que da ultima vez fui preso injustamente – parecia certo do que falava – Eu estava bêbado e não sabia que a loira não queria… - Jay-Jay! – Thur o interrompeu, me indicando com os olhos. - ‘Ta certo, ‘ta certo… – resmungou – “Nada de palavras feias e/ou obscenas perto da princesa” – ele fazia uma voz afetada, imitando algo já dito por Arthur. Dei uma gargalhada. - Você é um inútil mesmo – Thur suspirou – Vamos entrar. Ele destrancou a porta e girou a maçaneta. Um senhor de mais ou menos sessenta anos colocava a mesa. Olhou-nos quando entramos. Jay-Jay também entrou. - Lu! – veio na minha direção, me dando um abraço que também correspondi. - Senhor Aguiar! – eu tinha um carinho muito grande por ele. - Faz quase uma semana que não a vejo… Está perdendo a freqüência de vir por aqui. Porém, com certeza essa situação vai mudar, agora que o Thur… – Thur fez um sinal com a mão para que ele se calasse – Ah, você ainda não contou pra ela, meu filho? - Ainda não – ele abaixou a cabeça. - Até eu já sei – Jay-Jay deu uma risada – Mas pense assim, mano… - ele colocou o braço sobre os ombros de Thur – Agora que você tem recursos, sei de um lugar ótimo para vocês dois… – Arthur o fuzilou com os olhos – “Olhe a boca, Jay-Jay” – novamente ele fazia a voz afetada, girando os olhos. Ri de novo, apesar de estar um pouco confusa. - Já vou servir o jantar. Podem se sentar à mesa – senhor Aguiar dizia, indo em direção à pequena cozinha. A mesa de jantar ficava na sala. Logo, nós três (contando com o J.J) já havíamos nos sentado. - A título de curiosidade… – eu começava a perguntar, olhando para os dois – J.J é abreviação de quê? - Você nunca soube disso? – Thur perguntou boquiaberto – Mesmo depois de todos esses anos? – fiz que não com a cabeça. - Jason Jeffrey - J.J estendia a mão para mim – Muito prazer, princesa – ri do “cumprimentando”. Sr. Aguiar já tinha colocado a comida na mesa e começamos a jantar. Seu espaguete estava impecável, como sempre. -… E ele disse isso enquanto estava dormindo cara! – dizia Jay-Jay entre gargalhadas. Todos nós ríamos – Dá para acreditar? - Ai… - eu dizia, já sentindo dor no abdômen de tanto rir – Se eu falasse enquanto dormia, seria muito vergonhoso. Quem sabe o que eu poderia dizer? – mais risadas. - Eu também – Thur disse, já parando de rir. - Na verdade, Arthur… – senhor Aguiar limpava a boca com o guardanapo. Jay-Jay soltou um “Iiiih!”, como se quisesse dizer: “ferrou para você, cara”. Thur fez careta – Você fala dormindo, sim. - Ah, não brinca! – Thur disse boquiaberto - O que eu falo? – ele parecia um pouco tenso, me olhando de lado. Eu prestava atenção. Sobre o que será que o Thur sonhava? Acho que nunca conversamos sobre isso. - Você sussurra o nome da Lua a noite inteira – Thur começou a engasgar e eu também – “Lua”… “Lu”… – senhor Aguiar imitava. - Calúnia! – ele começou a dizer entre tosses. Jay-Jay se divertia. - Pior é que é verdade, cara. Até eu que moro no apartamento do lado escuto – mais risadas. Só que dessa vez, apenas entre ele e o senhor Aguiar. Enquanto engasgávamos, Arthur me lançou um olhar, como se quisesse ver a minha reação. Eu estava vermelha de vergonha, assim como ele também. - Não dê ouvidos ao que esses dois falam – Thur dizia, descendo as escadas – Eles sabem de nada. - Tudo bem – eu disse um pouco sem graça – Não dei ouvidos mesmo. - Preparada para a surpresa? – ele disse, retomando o ânimo. - Ah! A surpresa – já tinha quase me esquecido dela. Thur abriu a porta do prédio e desceu as escadinhas, correndo, parando na frente de um carro. - “Tcharam”! – ele disse, virando as duas mãos na direção do veículo. - Isso é sério? – perguntei boquiaberta – Você agora tem um carro? - Bem… – cruzou as duas mãos atrás da cabeça - Ele ainda pode parecer uma lata-velha, mas nada que algumas horas na oficina não resolvam – deu de ombros. Corri para perto, para vê-lo (o carro) melhor. Era um Oldsmobile Starfire Holiday antigo, azul, com a pintura meio gasta e as rodas um pouco sujas, mas servia bem. - Quer dar um volta? – ele olhou pra cima um pouco sem jeito. - Claro! – concordei, já abrindo a porta do carro e me lançando para o banco do carona. Thur se sentou no banco do motorista, girando a chave na ignição. - Quando aprendeu a dirigir? – perguntei com as duas sobrancelhas levantadas. - Sei de muita coisa que você nem suspeita, baby – ele piscou pra mim, me fazendo rir. - Não sabia desse seu lado de “agente secreto britânico” – brinquei. - O nome é Aguiar, querida - piscou pra mim de novo – Arthur Aguiar – dei uma gargalhada com a tentativa do Thur de fazer uma “cara sensual”. Ele acelerou o carro, me fazendo ficar surpresa com o fato de ele, realmente, saber dirigir. Ficamos um momento em silêncio, enquanto eu tentava sintonizar a rádio. - Aquela tontura… – Thur começava a falar. - Hm? - Hoje de manhã… – ele olhava sério para a estrada – Foi por causa do Pedro? - Ah… Não sei ao certo. Acho que não – mentirosa. Eu sabia. Tinha sido por causa do Pedro. Parecia que eu tinha um bloqueio para falar desse tipo de coisas com o Thur. - Você já está melhor? - Bem melhor. - Aconteceu alguma coisa entre vocês? – ainda sério. - Ah, não. Nada. Ele só me levou para a enfermaria – dei de ombros – Ah! - O quê? - A Rayanna me pediu pra “vender o peixe dela” para você – ele riu. - E é isso que você vai fazer? - Não – comecei a brincar com o meu cabelo depois de desistir de sintonizar a rádio – Eu disse para ela que você não era do tipo que “comprava o peixe” de alguém – novamente ele riu. - Que bom que você sabe. - Para onde está me levando? – lembrei-me desse pequeno detalhe de repente. - Para casa – Ele sorriu – Já está mais do que na hora de você ir para a cama. - Está parecendo o meu pai – cruzei os braços. Ele olhou de rabo de olho e deu uma risada. - Está na hora de alguém aqui começar a ter um pouco de responsabilidade. Não acha? A rádio, enfim, sintonizou, e continuamos o caminho, cantando qualquer música da Celine Dion que tocava. Por: @_smileaguiar

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