segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Web LuAr: Um Dia De Cada Vez - Capítulo Dois

Elite Way, 3 de setembro. Lá pelas sete e quarenta e cinco da manhã.
- Lua! – ouvi uma voz feminina conhecida me chamar.
- Rayanna… – disse, me virando devagar. Eu ainda estava meio desacordada.
- Nossa você está péssima – ela dizia analisando meu rosto. Sinceridade aqui é mato – Que horas foi dormir ontem?
- Lá pelas duas da manhã – dei de ombros.
- O que você ficou fazendo?
- Uma pesquisa imensa sobre a revolução francesa… - reparei na sua face um tanto entusiasmada – Direto ao assunto, Rayanna – estreitei os olhos.
- Próximo sábado, vou fazer uma festa do pijama lá em casa! O que acha?
- Festa do pijama? – agora que ela falou, me lembrei de que eu não ia a uma dessas desde a sétima série.
- Mas é claro que é uma coisa mais íntima. Chamei só as de sempre – ela abriu um sorriso largo – Posso anotar que você vai?
O entusiasmo dela conseguiu despertar em mim uma súbita vontade de sair com minhas amigas. Maior parte do tempo eu passava com o Arthur e já estava começando a ficar alheia aos assuntos femininos.
- Com certeza – sorri.
Rayanna começou a anotar o meu nome em um papel.
- Obrigada, amiga.
- Lu! – ouvi uma voz masculina gritar. Rayanna deu um sorrisinho que eu jurava ter visto igual na face da minha mãe na noite anterior.
- Thur – virei meu rosto para ele, ainda a tempo de vê-lo correndo na minha direção.
- Você vai hoje à noite, certo? – ele segurava a mochila ofegante.
- Certo… – respondi pensativa. Rayanna nos olhava com interesse, como se perguntasse com os olhos “hoje à noite o quê?” – Mas fiquei curiosa. O que você tem pra me mostrar?
- Haha, mocinha – ele estava presunçoso. Algo me dizia que devia ser alguma coisa realmente interessante – Isso você só vai descobrir se for.
- Nem uma dica?
- Nem uma dica. Ah, oi Rayanna – segurei o riso ao perceber que só agora ele tinha notado a sua presença.
- Oi Thur – por alguma razão, não gostei muito do “oi Thur” que a Rayanna deu para ele. Foi devagar, insinuante… Sei lá. Mas enfim, isso não é da minha conta. Não sou dona dele.
O sinal bateu.
- Ah, droga! Aula de química no terceiro andar. Tenho que correr. O professor é um saco. Tchau meninas – e correu em direção às escadas.
- Ui, aonde vocês vão hoje á noite? – fazia cara de danada.
- “Se toca”, Ray! – dei um tapa de leve na cabeça dela – Somos só amigos – começamos a andar juntas em direção à sala de física. Tínhamos aula agora.
- Que bom – ela cruzou as mãos atrás do corpo – Se quiser vender o meu peixe, fique à vontade – com “vender o peixe”, ela quis dizer que era para eu encher a bola dela para ele.
Ri da intenção.
- Que é isso… – fiquei um pouco sem jeito – O Arthur não é muito do tipo de menino que “compra o peixe de alguém”.
- O que é uma pena – ela suspirou derrotada – Você não sabe quantas meninas gostariam de estar na sua pele para ir a qualquer lugar com ele hoje à noite.
Girei os olhos.
Quando pisei dentro da sala de aula, me choquei bruscamente contra alguma coisa, sendo jogada para trás. Alguém me segurou (provavelmente a mesma coisa a qual eu tinha me chocado).
- Você está bem? – por incrível que pareça, essa era justamente a voz que eu escutava me perguntando se eu estava bem em noventa e cinco por cento dos meus sonhos (isso quando eu não sonhava com o Arthur sentando em cima do meu bolo de aniversário. Uma péssima lembrança da sexta série). Comecei a bambear (reações desnecessárias do corpo humano).
- Ah… Er… Pedro… – eu disse, abrindo um sorriso abobado. Parecia que eu estava sujeita a derreter a qualquer momento.
Eu provavelmente já devia estar ficando vermelha e ele estava lá: cabelos perfeitos, nariz perfeito e olhos perfeitos que me olhavam com certa preocupação. Travei. Não conseguia falar mais nada.
- Professor! – ele gritou, se virando para o gordinho careca na frente da sala (lê-se: professor de física) – Acho que ela precisa ir à enfermaria! – o professor começou a me olhar também preocupado. Agora meu sangue devia ter saído do rosto. Minha boca não conseguia abrir para dizer que eu estava bem. Um lado da minha consciência dizia: do que importa? Ele está segurando você (e dava gritinhos histéricos)!
- Você pode se encarregar de levá-la, senhor Harrison? – o professor perguntou com sua voz baixa e rouca.
- Com prazer, senhor – ele sorriu.
Com prazer? Com prazer! Minha consciência agora dançava a macarena, enquanto a “eu” no estado físico estava toda mole sendo conduzida pelo Pedro.
“Dale a tu cuerpo alegria, Macarena…”
- Ela está bem? – ele perguntou.
- Está sim – a enfermeira dizia, tirando uma luzinha irritante do meu olho.
- Foi só uma tontura. Nada demais – ah, agora eu estava falando.
- Ela provavelmente deve estar com fome – deduziu brilhantemente - É recomendável que coma alguma coisa agora, senhorita Blanco –assinava uma permissão para Pedro entrar na sala.
- Isso pode ficar por sua conta, certo, Lu? – ele me chamou pelo meu apelido.
- P-pode. - gaguejei. -
- Então, tchau gata. – ele piscou para mim e balançou de leve a cabeça, como se pedisse licença para a enfermeira para sair da sala.
Talvez o meu suposto amor “platônico” não fosse mais tão platônico assim. Ele me achava uma gata. Uma gata nas nuvens, agora.
Enquanto Pedro estava passando pela porta, Thur entrava todo afobado. Durante o momento em que um passava pelo outro, eles trocaram um breve olhar. Pedro sorria, Thur parecia meio perturbado.
- Lu! O que aconteceu? Você estava tão bem na hora em que… – eu estava um pouco alienada – Lu?
- Ah! – retomava o assunto – Thur. Claro. Não houve nada.
- Tem certeza? – ele se agachou para ficar do meu tamanho. Eu estava sentada numa cadeira de madeira. Thur apoiou seus cotovelos no meu joelho para me examinar mais de perto – A Rayanna me mandou uma mensagem dizendo que você tinha passado mal. Você me parece meio pálida.
- Eu estou bem, Arthur – respondi, girando os olhos. Sentia-me uma menininha teimando com o pai.
- Se você diz – levantou-se – Mas ainda vai hoje á noite, não é?
- Não perderia por nada – sorri. Ele sorriu também – Ah! Acompanha-me até a cantina?
* Não houve qualquer intenção de ofender alguém nessa parte. O mesmo vale para falas que voltem a esse assunto.*
Por: @_smileaguiar

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