SoHo, Manhattan, 15 de setembro. Lá pelas quatro horas.
- Dá pra acreditar, Thur? – joguei-me no sofá ao seu lado. Ele segurava
uma vasilha de pipoca.
- É a mesma pergunta que você está me fazendo desde ontem à tarde. Não,
Lua. Não dá pra acreditar – ele parecia cansado da minha insistência.
- Qual o seu problema? – perguntei, unindo as sobrancelhas – Por que não
está dando pulos e gritinhos de felicidade comigo?
- Primeiro que, se fizesse esse tipo de coisa, eu seria gay – ele
começou a contar nos dedos – Segundo que acho que nem um gay dá pulinhos e
gritinhos de alegria.
- Felicidade – corrigi.
- Tanto faz. Só o Edward Cullen faz uma coisa como essas – dei uma
risada irônica. Ele sorriu com a minha irritação – Terceiro que o garoto mal
conversou com você e já veio lhe dando um selinho e quarto que, vamos e voltemos
à fama do Pedro não é lá a melhor de todas.
- Você também não é nenhum santo, gênio – girei os olhos – Já ficou com
cinco na mesma noite. Coisa que nem o Pedro fez.
- Eu estava bêbado e sem noção das minhas ações – ele balançou a cabeça
para cima e para baixo.
- E por que você acha que o Pedro não pode ter mudado? – estava
indignada – Por que acha que ele não pode gostar de mim?
- Não é isso… – ele juntou as sobrancelhas, pensativo – Só tenho medo de
que você se machuque – disse por fim. Soltei um longo suspiro.
- Obrigada por se preocupar. Sério – encostei a cabeça ao seu ombro –
Mas acho que já sou bem grandinha pra saber me cuidar. Certo?
Ele não respondeu.
- Você disse a mesma coisa quando começou a namorar o Gabriel, mas ainda
assim, ficou chorando na minha cabeça uma eternidade.
Dei um beliscão no braço dele.
- Ai, ai!
- Eu tinha só treze anos. Está bom? Mudei muito.
- Espero mesmo.
- Mudando de assunto… – ele voltou a olhar para mim – Que filme vamos
ver?
- Bem… – ele deixou a vasilha de pipoca ao meu lado e se levantou
presunçoso – Como prometi para você que não seria de terror e para mim mesmo
que não seria nenhuma coisa meiguinha, docinha e ridícula com o final feliz… –
aí vem – Peguei Titanic.
- ‘Ta. Pode ser. Gosto da trama.
Ele foi colocar o DVD.
- O Jay-Jay não vai ver com a gente? – perguntei.
- Hoje não. Ele está tentando arrumar um emprego – Thur se jogou ao meu
lado.
- Um emprego de quê?
- Produtor de bandas. Maioria daqui do bairro – ele riu de uma lembrança
– Uma vez ele até tentou produzir os urros de dor da senhora Stevens. Por
alguma razão, ele achou que fariam sucesso – gargalhei.
O filme começou.
- Veja se não chora – alertei.
- Nunca – respondeu, sorrindo.
Na metade do filme, eu já estava em prantos. O senhor Aguiar dormia e o
Thur se divertia com o meu choro.
A história é basicamente sobre uma mulher rica (Rose) que se apaixona
por um homem pobre (Jack) e vive o seu amor proibido à bordo do navio. Jack
mostra a Rose outra perspectiva da vida, de como as coisas simples pode ser
mais prazerosa.
Em várias partes do filme, eu conseguia enxergar o Thur no rosto do
Leonardo DiCaprio, no personagem que ele representava. Não que eu os achasse
parecidos de rosto, mas o jeito, a trama… Acho que por isso estava tão triste.
Quando o navio começou a afundar, eu mal conseguia respirar de tanto
soluçar. Imaginei o Thur naquela situação. Eu sabia o final.
- Não quero ver mais – disse entre soluços, enterrando meu rosto no
peito dele.
- Ah, mas justo agora que está ficando bom? – ele se lamentou. Parecia
estar se divertindo com a desgraça de Rose e Jack.
- Thur… – minha face ainda estava enterrada em seu peito. Já devia ter
molhado sua blusa toda. Voltei meu rosto pra ele. O garoto também se virou para
mim. Meu olhar estava suplicante – Por favor…
Acho que o mesmo entendeu o motivo pelo qual o Jack estava me tocando
mais do que nunca - mais do que nas outras vezes que eu vi esse filme -, porque
ele se levantou, sem questionar, e tirou o filme.
- E agora? – perguntou, parecendo despreocupado – Temos “Tartarugas
Ninjas” e “Tartarugas Ninjas”. Alguma preferência? – sorri. Ele colocou o DVD.
Estava escuro. Acordei no sofá, escorada no seu ombro. Ele me olhava sem
desviar o olhar. Senti um pouco de vergonha por estar sendo observada enquanto
dormia.
- Você dormiu no meio do filme – esclareceu.
- Droga – resmunguei – Há quanto tempo estamos assim?
- Mais ou menos uma hora – deu de ombros.
- E por que você não me acordou?
- Gosto de ver você dormindo - deu um sorriso disfarçado.
- Droga, Thur.
– Ah, e sobre aquele papo de falar dormindo… Sinto muito, mas você fala,
sim - estava presunçoso.
- Ah, caramba! – tampei a minha boca de vergonha – O que eu disse?
- Você sussurrou o nome do Pedro uma vez… – ele fez cara de
despreocupado – E sussurrou o meu duas – sorriu.
- Quê? – ele balançou a cabeça para cima e para baixo, como se dissesse:
“verdade” - Não pense coisas estranhas, Arthur – cruzei os braços.
- Nunca disse que eu estava pensando.
- Mas fez cara de quem estava.
- Eu, não – ele ainda sorria – Venha. Levante-se. Vou deixar você em
casa.
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